21 de julho de 2010

À porta

Sinto que estou às margens.. lembro-me de estar à sua porta. Era algo tão natural, que soava ofensivo seguir o caminho. Eu entrava, você me abraçava, e todo o resto era como respirar.. Nosso tempo passava e se transformava, e em mim a confiança de que tudo aquilo era permanente acalmava meu coração. Saber seus gestos, ouvir seus risos. Mesmo em silêncio, nossa presença se completava, como se mesmo o ar tecesse entre nós a cumplicidade como linhas palpáveis. Mesmo que tudo o que nos unisse fosse um frágil laço invisível..

Hoje passo em frente à sua casa. Embora minha mente me traga vagamente a lembrança de sua campainha, meus pés já não me fazem parar. Sigo em frente e olho pelos cantos, como se olhar de frente concretizasse a realidade.. Como se apertar os olhos diminuísse a saudade.


[a pessoas que não visito mais]

28 de junho de 2010

Tabula Rasa

Continuava andando nas pedras, nas sombras, nas areias.. andando sem saber dos passos que tomava, enfim, como já de costume. Já foi medo, sim: medo de seguir, medo de parar.. E agora não havia mais nada disso.
Ela olhou além, pro horizonte que tanto desejara, e viu que não havia nada que desejasse mais que estar ali. Não em meio às pedras e às árvores, nem tampouco entre as pessoas e todas as necessidades que elas criavam; não, apenas dentro de si mesma. Encontrando um algo que lhe acompanhava aonde quer que fosse. Às vezes se expressava com clareza, quando havia calma e nostalgia, quando o ar era morno e as luzes da cidade banhavam a noite.. Achava que era solidão, fantasmas, fadas e todo dia de magia.. Pensou escutar uma voz, uma melodia.. Pensou sentir um toque na pele já fria. E de tudo, ficou o vazio: passou alguém, algo assustou. E foi o fim. Nos dias seguintes, andando entre pessoas e ocupações e mercadorias, não viu mais nada. Algo que a seguia, mas não conseguia sentir...



Nos tempos adiante, muito tempo depois, num momento de solidão, encontrou o que procurava: num momento de quietude, aquela paz que tomava os sentidos se mostrava timidamente mais uma vez.
Estivera a caçar seus demônios, seus defeitos, seus erros e tudo o que pudesse exorcizar. Agora encontrava algo que a andava procurando por tempo muito maior.
Encontrara sua alma.

"nos passos que tomo a ordem desanda
as vistas enturvam, a vida arrasa
se caio ou se sigo, se canto a ciranda
no final nada sobra, sou tabula rasa."

17 de abril de 2010

O Semáforo

Olhou no relógio. A certeza de que não haviam olhos a observando lhe deu um alívio seco. Em torno de si, tudo era solidão e sombras. O vento se escondia por entre as gretas das paredes gélidas, assustava os transeuntes concentrados nos seus próprios passos e se dissipava. O bueiro tinha nas suas entranhas um mórbido breu que se movia sob as sombras à procura de restos. A rua, pálida e infinita, chamava para si um ou outro homem solitário que procurava nas suas esquinas algumas respostas perdidas. Talvez a sua irremediável culpa por existir encontrasse consolo em alguma dessas esquinas. Tarde demais. Grossas lágrimas caíam no asfalto deixando o piche cheirando a morte. A rua, o vento, as lágrimas escuras. O sinal vermelho.

15 de novembro de 2009

No bosque

"- Eu desejo que seus desejos se tornem reais. Desejo que siga seu caminho porque eu não posso mais. Vai na frente que eu vou seguindo seus passos... Não, vai na frente que eu vou pelo outro caminho. Não.. vai na frente mas pela areia, pra que eu não siga seus passos. Vai pela brisa para eu não seguir seu cheiro. Não, vai dando a volta pra gente se encontrar lá na frente. Não, vai.. Não vai. Vai logo antes que eu mude de idéia."

Sob a sombra do carvalho, pequenos pedaços de folhas iam caindo, abrindo espaço a pequenos feixes de sol. O ar cheirava a terra, e a vida invisível do bosque fazia a sua parecer ainda mais abatida. Encostou-se no tronco e respirou fundo. Ainda lhe restava uma tarde inteira, tempo pro coração se espalhar e bater de novo. Tempo até pra pensar; como se isso mudasse a direção dos ventos... O coração suspenso no ar. Alinhado aos sentimentos dela, o bosque se agitou todo, fazendo os pássaros voarem baixo e as folhas irem pro alto. Alinhado até demais..

"- Vai chover."

24 de agosto de 2009

Gangorra

Às vezes sinto que tudo vai desmoronar. A brisa, ao invés de entrar pelos pulmões e soprar qualquer coisa que pareça com vida, só faz assustar e me fechar mais e mais fundo. Não sou o que idealizam, o que pretendo.. sou o que posso, o que meus braços conseguem alcançar nesse escuro denso. Alcançam o quê? As ondas vão e vem, e não consigo me dividir em pólos, não consigo andar nessa linha fina. Por medo da inconstância, enterrei os meus sentimentos nesse terreno vil, o mais fundo que consegui para que não aflorem mais. Como sementes no deserto. Como cultivar um jardim onde só há extremos? Tempestades de areia, sol, sal.. Não há vida que aguente, nem sentimento que se sustente. As pessoas passam alheias, praguejando o terreno por onde pisam sem saber de toda a vida que existe sob seus pés.. Às vezes me vem uma vontade louca de por tudo pra fora, para que as pessoas vejam, que apesar de tudo, existe vida, mesmo das mais delicadas.. Olho em volta, não há o que mostrar. Mesmo que toda a terra da minha alma fosse um grande jardim, por fora ainda é um grande deserto do qual ninguém se aproxima. Os dias vêm e vão, e apertando os olhos contra a tempestade que eu mesma criei, vou subindo e descendo nessa gangorra solitária, num deserto tão grande que já nem me importo mais em olhar o horizonte de minha vida. O tempo range.

9 de junho de 2009

Dúbio

É pó sem ser passado. Escorre pelos dedos e deixa o tato cheio de saudade. Não sei lidar com essas mãos vazias... Como saber? Alguém disse que é assim mesmo, uma hora ternura e outra tormenta. Quem tem o direito de dizer o que é tempestade e o que é copo d'água?



As idéias se aglomeram num canto de pó e abandono, mas resgatar sentimentos já não vale à pena... Suspensas no tempo, as coisas todas se misturam.

18 de abril de 2009

Paz e Areia

Foi embora. Em todos os seus rastros, sempre deixou o vazio de sua alma, possuía aquela incompletude que não podia preencher. Por mais sorrisos e ordem que sua vida fosse, jamais poderia criar vínculos sem se machucar. Sua inquietude roía os laços que fazia, e em pouco tempo não restava nada além de solidão. Mas lá longe.. como gostava de lembrar! Lá havia espaço, havia ela mesma, havia paz.. Não aquela paz solitária e de angústia, mas a paz morna, duradoura.. Pois vivia mais um desses dias, que andava em círculos a procura de alguma coisa, mas seu coração sabia bem aonde queria chegar. Foi para lá. Passou direto, foi, voltou, onde estava? Havia coisas, sentimentos pairando, mas nada daquilo que semeara, nada daquilo que deixara ali. Seu espaço. Sua paz. Ali tinha sido seu forte contra os males de dentro e de fora, seu sossego, seu não mais.. Suas pedras viraram areia. Para onde iria então? O coração pulsava com força, os olhos apertados: voltava a cair no velho abismo. Onde enterrar as mágoas? A chuva caía forte.


[ Em memória de lugares que não são mais =/ ]

27 de fevereiro de 2009

Mudança

"- Como se mede uma mudança?

Pelos papéis velhos na lixeira
Pelo andar triste que se faz ligeiro
Pela cor do olhar que vê sem poeira
Pela lágrima seca no travesseiro

Pelo corpo que age com mais movimento
Pelo dia que roda com mais engrenagem
Pelo ar puro, entrando por dentro
Pelo recriar, e mais outra paisagem

Pela vida que escorre, que água e é ciclo
Por ser duro e difícil, e ser doce ainda sim
Pelo pulso da alma que alarda o vício
Do novo começo para o velho fim

- Como se mede uma mudança?
Com os fios que se traçam pela esperança..."

2 de janeiro de 2009

[Volta]

É difícil se desfazer de algo tão delicado. É como jogar uma flor no meio do lixo, um sentimento bonito numa caixa de sapatos. Esse blog foi, e ainda é, a minha flor no meio do asfalto, minha força e minha fraqueza, meu querido diário para todo mundo sentir.

Por isso que eu não vou me desfazer dele mais. Por isso que eu estou de volta, alguns sentimentos novos, outros nem tanto; de volta.

"I only know what I know
The passing years will show..."

4 de setembro de 2008

Submersão

E se a chuva vem lavar o meu passado
E mostrar claro as feridas que alimento
Maior tormento, do desejo mais errado
Erro maior, do sentimento mais sedento
Meu peito lento aprende a sofrer calado
Recolhe as mágoas nas encostas do cimento
Traz argumentos de um coração fechado
Desalinhado, traz e leva mais momentos
Por fim, atento, dá o caos por encerrado
Com a promessa de emergir daqui uns tempos...



"Uncry these tears
I've cried so many nights
Unbreak my heart.."