※ Tabula Rasa


Continuava andando nas pedras, nas sombras, nas areias.. andando sem saber dos passos que tomava, enfim, como já de costume. Já foi medo, sim: medo de seguir, medo de parar.. E agora não havia mais nada disso.
Ela olhou além, pro horizonte que tanto desejara, e viu que não havia nada que desejasse mais que estar ali. Não em meio às pedras e às árvores, nem tampouco entre as pessoas e todas as necessidades que elas criavam; não, apenas dentro de si mesma. Encontrando um algo que lhe acompanhava aonde quer que fosse. Às vezes se expressava com clareza, quando havia calma e nostalgia, quando o ar era morno e as luzes da cidade banhavam a noite.. Achava que era solidão, fantasmas, fadas e todo dia de magia.. Pensou escutar uma voz, uma melodia.. Pensou sentir um toque na pele já fria. E de tudo, ficou o vazio: passou alguém, algo assustou. E foi o fim. Nos dias seguintes, andando entre pessoas e ocupações e mercadorias, não viu mais nada. Algo que a seguia, mas não conseguia sentir...



Nos tempos adiante, muito tempo depois, num momento de solidão, encontrou o que procurava: num momento de quietude, aquela paz que tomava os sentidos se mostrava timidamente mais uma vez.
Estivera a caçar seus demônios, seus defeitos, seus erros e tudo o que pudesse exorcizar. Agora encontrava algo que a andava procurando por tempo muito maior.
Encontrara sua alma.

"nos passos que tomo a ordem desanda
as vistas enturvam, a vida arrasa
se caio ou se sigo, se canto a ciranda
no final nada sobra, sou tabula rasa."