18 de janeiro de 2018

Sobre o que não sei ler



É um antigo costume de escritora: às vezes, nas primeiras horas do relógio, consigo aquietar a mente e me lembrar com mais detalhes das tuas palavras, e as anoto na pele para não perdê-las. Daquela risada inesperada tiro notas no violão antigo, e daquilo que te lembrou de mim bebo alguns goles para manter vivo. Ainda assim, vão se desprendendo de mim pequenos fragmentos de lembranças tuas, pedacinhos de frágil papel sobre quem sei sobre você... 

Com ansiedade e ternura, vou recolhendo teus rastros um a um de meus lençóis vazios e tentando entender.. o quê? Embora muito claros, tudo o que tenho de cada migalha é a certeza do que elas não são: não são peças de quebra-cabeça que vão me revelar como contornar essa precaução sempre tão presente nos teus modos; também não são quaisquer palavras que me possam fazer flutuar nos pensamentos que tens antes de dormir, te dando uma lembrança de carinho e paz; mesmo juntas também não são quaisquer promessas de mudança ou revelação: não há qualquer luz de futuro a lhes prometer recomeços. Como pode a negação ser tão cheia de significados?


Pela calma do meu coração, queria que, por não serem aquelas ideias, pudesse deixá-las e partir, mas aí está a peça que me pregas: cada papel que colocaste na palma de meu coração é um pedaço de ti mesmo, e só de ser assim já desejava ter nascido antes para ter mais tempo de tê-los vistos e revistos, decorados pelos meus dedos, lembrados pelo meu olfato. Penso em quantas vezes vou entrar em sonos inquietos sem nem saber se teus fragmentos são de zelo ou distração, e acordo pensando na distância que essa proximidade tão constrangida construiu entre nós. Encaro os primeiros raios de luz resoluta em desistir desse poema impossível, mas para o meu desencanto tão dolorido basta o sutil halo da tua presença: tudo se esvai e o que me resta é guardar em silêncio cada luz tua no fundo de minhas íris, que te notam tanto tristes quanto admiradas.

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