É
um antigo costume de escritora: às vezes, nas primeiras horas do
relógio, consigo aquietar a mente e me lembrar com mais detalhes das
tuas palavras, e as anoto na pele para não perdê-las. Daquela
risada inesperada tiro notas no violão antigo, e daquilo que te
lembrou de mim bebo alguns goles para manter vivo. Ainda assim, vão
se desprendendo de mim pequenos fragmentos de lembranças tuas,
pedacinhos de frágil papel sobre quem sei sobre você...
Com
ansiedade e ternura, vou recolhendo teus rastros um a um de meus
lençóis vazios e tentando entender.. o quê? Embora muito
claros, tudo o que tenho de cada migalha é a certeza do que elas não
são: não são peças de quebra-cabeça que vão me revelar como
contornar essa precaução sempre tão presente nos teus modos;
também não são quaisquer palavras que me possam fazer flutuar nos
pensamentos que tens antes de dormir, te dando uma lembrança de
carinho e paz; mesmo juntas também não são quaisquer promessas de
mudança ou revelação: não há qualquer luz de futuro a lhes
prometer recomeços. Como pode a negação ser tão cheia de
significados?
Pela
calma do meu coração, queria que, por não serem aquelas ideias,
pudesse deixá-las e partir, mas aí está a peça que me pregas:
cada papel que colocaste na palma de meu coração é um pedaço de
ti mesmo, e só de ser assim já desejava ter nascido antes para ter
mais tempo de tê-los vistos e revistos, decorados pelos meus dedos,
lembrados pelo meu olfato. Penso em quantas vezes vou entrar em sonos
inquietos sem nem saber se teus fragmentos são de zelo ou distração,
e acordo pensando na distância que essa proximidade tão
constrangida construiu entre nós. Encaro os primeiros raios de luz
resoluta em desistir desse poema impossível, mas para o meu desencanto
tão dolorido basta o sutil halo da tua presença: tudo se esvai e o que me resta é guardar em silêncio cada luz tua no fundo de minhas íris, que te notam tanto tristes quanto
admiradas.

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