※ No bosque


"- Eu desejo que seus desejos se tornem reais. Desejo que siga seu caminho porque eu não posso mais. Vai na frente que eu vou seguindo seus passos... Não, vai na frente que eu vou pelo outro caminho. Não.. vai na frente mas pela areia, pra que eu não siga seus passos. Vai pela brisa para eu não seguir seu cheiro. Não, vai dando a volta pra gente se encontrar lá na frente. Não, vai.. Não vai. Vai logo antes que eu mude de idéia."

Sob a sombra do carvalho, pequenos pedaços de folhas iam caindo, abrindo espaço a pequenos feixes de sol. O ar cheirava a terra, e a vida invisível do bosque fazia a sua parecer ainda mais abatida. Encostou-se no tronco e respirou fundo. Ainda lhe restava uma tarde inteira, tempo pro coração se espalhar e bater de novo. Tempo até pra pensar; como se isso mudasse a direção dos ventos... O coração suspenso no ar. Alinhado aos sentimentos dela, o bosque se agitou todo, fazendo os pássaros voarem baixo e as folhas irem pro alto. Alinhado até demais..

"- Vai chover."

※ Gangorra


Às vezes sinto que tudo vai desmoronar. A brisa, ao invés de entrar pelos pulmões e soprar qualquer coisa que pareça com vida, só faz assustar e me fechar mais e mais fundo. Não sou o que idealizam, o que pretendo.. sou o que posso, o que meus braços conseguem alcançar nesse escuro denso. Alcançam o quê? As ondas vão e vem, e não consigo me dividir em pólos, não consigo andar nessa linha fina. Por medo da inconstância, enterrei os meus sentimentos nesse terreno vil, o mais fundo que consegui para que não aflorem mais. Como sementes no deserto. Como cultivar um jardim onde só há extremos? Tempestades de areia, sol, sal.. Não há vida que aguente, nem sentimento que se sustente. As pessoas passam alheias, praguejando o terreno por onde pisam sem saber de toda a vida que existe sob seus pés.. Às vezes me vem uma vontade louca de por tudo pra fora, para que as pessoas vejam, que apesar de tudo, existe vida, mesmo das mais delicadas.. Olho em volta, não há o que mostrar. Mesmo que toda a terra da minha alma fosse um grande jardim, por fora ainda é um grande deserto do qual ninguém se aproxima. Os dias vêm e vão, e apertando os olhos contra a tempestade que eu mesma criei, vou subindo e descendo nessa gangorra solitária, num deserto tão grande que já nem me importo mais em olhar o horizonte de minha vida. O tempo range.

※ Dúbio


É pó sem ser passado. Escorre pelos dedos e deixa o tato cheio de saudade. Não sei lidar com essas mãos vazias... Como saber? Alguém disse que é assim mesmo, uma hora ternura e outra tormenta. Quem tem o direito de dizer o que é tempestade e o que é copo d'água?



As idéias se aglomeram num canto de pó e abandono, mas resgatar sentimentos já não vale à pena... Suspensas no tempo, as coisas todas se misturam.

※ Paz e Areia


Foi embora. Em todos os seus rastros, sempre deixou o vazio de sua alma, possuía aquela incompletude que não podia preencher. Por mais sorrisos e ordem que sua vida fosse, jamais poderia criar vínculos sem se machucar. Sua inquietude roía os laços que fazia, e em pouco tempo não restava nada além de solidão. Mas lá longe.. como gostava de lembrar! Lá havia espaço, havia ela mesma, havia paz.. Não aquela paz solitária e de angústia, mas a paz morna, duradoura.. Pois vivia mais um desses dias, que andava em círculos a procura de alguma coisa, mas seu coração sabia bem aonde queria chegar. Foi para lá. Passou direto, foi, voltou, onde estava? Havia coisas, sentimentos pairando, mas nada daquilo que semeara, nada daquilo que deixara ali. Seu espaço. Sua paz. Ali tinha sido seu forte contra os males de dentro e de fora, seu sossego, seu não mais.. Suas pedras viraram areia. Para onde iria então? O coração pulsava com força, os olhos apertados: voltava a cair no velho abismo. Onde enterrar as mágoas? A chuva caía forte.


[ Em memória de lugares que não são mais =/ ]

※ Mudança


"- Como se mede uma mudança?

Pelos papéis velhos na lixeira
Pelo andar triste que se faz ligeiro
Pela cor do olhar que vê sem poeira
Pela lágrima seca no travesseiro

Pelo corpo que age com mais movimento
Pelo dia que roda com mais engrenagem
Pelo ar puro, entrando por dentro
Pelo recriar, e mais outra paisagem

Pela vida que escorre, que água e é ciclo
Por ser duro e difícil, e ser doce ainda sim
Pelo pulso da alma que alarda o vício
Do novo começo para o velho fim

- Como se mede uma mudança?
Com os fios que se traçam pela esperança..."

※ [Volta]


É difícil se desfazer de algo tão delicado. É como jogar uma flor no meio do lixo, um sentimento bonito numa caixa de sapatos. Esse blog foi, e ainda é, a minha flor no meio do asfalto, minha força e minha fraqueza, meu querido diário para todo mundo sentir.

Por isso que eu não vou me desfazer dele mais. Por isso que eu estou de volta, alguns sentimentos novos, outros nem tanto; de volta.

"I only know what I know
The passing years will show..."

※ Submersão


E se a chuva vem lavar o meu passado
E mostrar claro as feridas que alimento
Maior tormento, do desejo mais errado
Erro maior, do sentimento mais sedento
Meu peito lento aprende a sofrer calado
Recolhe as mágoas nas encostas do cimento
Traz argumentos de um coração fechado
Desalinhado, traz e leva mais momentos
Por fim, atento, dá o caos por encerrado
Com a promessa de emergir daqui uns tempos...



"Uncry these tears
I've cried so many nights
Unbreak my heart.."

※ Minha sombra


Às vezes tento fluir com clareza
Algo qualquer que por dentro me assombra
As dores da alma se esvaem com destreza
No fundo dos olhos, na minha sombra

Minha fé é muda, minha fé muda
Pisca distante no labirinto tonto
Crédula, atéia, derruba, ajuda
Não me encontro, não me encontro

Nos atoleiros de pequenez
Sinto meus pés indo valentes
Afundo lenta, mais uma vez
Eficiente, e as mãos dormentes

Se então penso em não querer
Meu peito de pronto remansa
A sombra insiste em me envolver
Nunca descansa, sempre me alcança

※ ( Raízes )


Eu tentei me dizer com todas as forças que isso já não serve mais pra nós, que já não pode mais significar tanto quanto a gente achou que pudesse. No final das contas, o que sobrou de mim foi muito pouco perto das nossas lembranças, e eu não consigo me lembrar das coisas que eu sentia, era como se todo o resto fosse uma neblina espessa da qual a gente não se dava conta. Hoje eu vejo que o resto era uma parte importante de mim, uma parte que eu não devia ter deixado de enxergar se eu quisesse seguir em frente sem deixar meus pedaços no caminho. Gostaria de levar meus sentimentos como quem leva malas, guardar tudo no mais íntimo e partir sem medo de estar deixando algo pra trás. Você se importaria? Se eu tivesse coragem de olhar pra trás, gostaria de saber o que você fez com as coisas que eu deixei, se guardou algum pedacinho de mim ou se partiu sem sequer olhar, por pesar ou medo do nosso passado. Passado pra você, suponho eu, pois o sorriso dos seus olhos parece não se ressentir.. Você mentiria tão inocentemente assim? Sabe, às vezes eu gosto de me sentar à sombra daquela árvore antiga e imaginar o quão profundas são minhas raízes nos seus gestos, nos seus abraços, nos seus sorrisos.. Tento me levantar e ir minutos depois, como quem pensa bobagens sem sentido, mas só de levantar sinto que meus pés já criaram raízes no chão, sinto que são mãos inquietas revolvendo meu coração à procura de lembranças, sinto tanta coisa, sinto tanto! Sinto por não ter plantado nos seus sorrisos a confiança para que eles não murchassem, sinto por não ter aberto as portas pro seu coração se abrigar tranqüilo, sinto não ter te contado dos meus medos mesmo sabendo que você os conhecia, sinto não ter chorado quando você disse adeus ao invés de te pedir pra ficar, sinto por continuar mantendo tudo isso dentro de mim mesmo sabendo que você gostaria que eu só me lembrasse do que me fizesse sorrir. Lembro de uma vez ter te perguntado o porque de você nunca estar triste, e você ter dito que não tinha motivos pra se entristecer perto de mim. Hoje eu sei que não é isso, por Deus, agora eu sei.. Seus olhos sorridentes eram sorridentes por mim, e ao contrário de mim, você jamais faria nada que ferisse alguém que você ama de verdade. Alheias ao que acontece com os nossos sentimentos as raízes se aprofundam, e eu já não sei o que fazer com os meus dias...

"- Quais palavras ficaram por dizer?
- Três.
(Eu . te . amo.
Eu . sinto . muito.)
- Até algum dia."

Algumas coisas tem raízes dentro de nós..

※ Ponto


"Como um ponto não tem fim
Nem se parte na metade
Não se mede realmente
Não se vê com claridade
O amor dentro de mim
Vive solitariamente
E, embora, inconsciente
Seja final, na verdade
Dentro sente ser assim
Grande paralelamente
Se estendendo à eternidade"