※ Minha sombra


Às vezes tento fluir com clareza
Algo qualquer que por dentro me assombra
As dores da alma se esvaem com destreza
No fundo dos olhos, na minha sombra

Minha fé é muda, minha fé muda
Pisca distante no labirinto tonto
Crédula, atéia, derruba, ajuda
Não me encontro, não me encontro

Nos atoleiros de pequenez
Sinto meus pés indo valentes
Afundo lenta, mais uma vez
Eficiente, e as mãos dormentes

Se então penso em não querer
Meu peito de pronto remansa
A sombra insiste em me envolver
Nunca descansa, sempre me alcança

※ ( Raízes )


Eu tentei me dizer com todas as forças que isso já não serve mais pra nós, que já não pode mais significar tanto quanto a gente achou que pudesse. No final das contas, o que sobrou de mim foi muito pouco perto das nossas lembranças, e eu não consigo me lembrar das coisas que eu sentia, era como se todo o resto fosse uma neblina espessa da qual a gente não se dava conta. Hoje eu vejo que o resto era uma parte importante de mim, uma parte que eu não devia ter deixado de enxergar se eu quisesse seguir em frente sem deixar meus pedaços no caminho. Gostaria de levar meus sentimentos como quem leva malas, guardar tudo no mais íntimo e partir sem medo de estar deixando algo pra trás. Você se importaria? Se eu tivesse coragem de olhar pra trás, gostaria de saber o que você fez com as coisas que eu deixei, se guardou algum pedacinho de mim ou se partiu sem sequer olhar, por pesar ou medo do nosso passado. Passado pra você, suponho eu, pois o sorriso dos seus olhos parece não se ressentir.. Você mentiria tão inocentemente assim? Sabe, às vezes eu gosto de me sentar à sombra daquela árvore antiga e imaginar o quão profundas são minhas raízes nos seus gestos, nos seus abraços, nos seus sorrisos.. Tento me levantar e ir minutos depois, como quem pensa bobagens sem sentido, mas só de levantar sinto que meus pés já criaram raízes no chão, sinto que são mãos inquietas revolvendo meu coração à procura de lembranças, sinto tanta coisa, sinto tanto! Sinto por não ter plantado nos seus sorrisos a confiança para que eles não murchassem, sinto por não ter aberto as portas pro seu coração se abrigar tranqüilo, sinto não ter te contado dos meus medos mesmo sabendo que você os conhecia, sinto não ter chorado quando você disse adeus ao invés de te pedir pra ficar, sinto por continuar mantendo tudo isso dentro de mim mesmo sabendo que você gostaria que eu só me lembrasse do que me fizesse sorrir. Lembro de uma vez ter te perguntado o porque de você nunca estar triste, e você ter dito que não tinha motivos pra se entristecer perto de mim. Hoje eu sei que não é isso, por Deus, agora eu sei.. Seus olhos sorridentes eram sorridentes por mim, e ao contrário de mim, você jamais faria nada que ferisse alguém que você ama de verdade. Alheias ao que acontece com os nossos sentimentos as raízes se aprofundam, e eu já não sei o que fazer com os meus dias...

"- Quais palavras ficaram por dizer?
- Três.
(Eu . te . amo.
Eu . sinto . muito.)
- Até algum dia."

Algumas coisas tem raízes dentro de nós..

※ Ponto


"Como um ponto não tem fim
Nem se parte na metade
Não se mede realmente
Não se vê com claridade
O amor dentro de mim
Vive solitariamente
E, embora, inconsciente
Seja final, na verdade
Dentro sente ser assim
Grande paralelamente
Se estendendo à eternidade"

※ Fios


Sentou-se na beira da cama. Enquanto seus pés balançavam preguiçosamente em busca de chinelos, ela ia tentando fixar entre as sombras do quarto as idéias que lhe passaram a mente enquanto dormia. Sonhara com alguém? A boca semi-amarga ia procurando vestígios antes que aquelas imagens desbotadas cheirassem a café. A luz branca e inválida que ia se estendendo vagarosamente da janela não parecia sequer colidir com aquele ar espesso acumulado. Tentou fechar os olhos e mergulhar pra dentro, e de pronto sentiu as lembranças esvaírem contra um forte sólido. Quis dar a volta, desmanchar, pular, fugir, mas a muralha parecia à prova de... quais eram mesmo as suas armas? Faltou-lhe o ar. De olhos entreabertos, foi se vestindo numa falsa despreocupação, como o dono que espera o pássaro com a porta da gaiola aberta. Já pronta, demorou-se mais um pouco numa frágil relutância, embora soubesse que não se engana inimigos internos. Abriu a porta. Contra a luz, os fios de fumaça no ar levitavam sabidos momentos, e costuravam lentos toda a vida que seu coração secreto guardava. De tão doces, ela nem resistiu a se entremear, e os pequenos fios tomaram todos os espaços de sua alma. Fios doces e pequenos, que coseram sua vida sem ela sequer perceber. Fios de insônia. Fios de sal. Fechou a porta.

※ Enfim


Olhou praqueles olhos tristes.

Uma luz no fundo da íris iluminou alguma coisa entre o passado e a saudade. Do alto do monte, aquelas duas luzinhas pareciam muito pequenas pra sua alma, pareciam gastas.. De desistência e de medo. Seria mais fácil voltar, seria mais prazeroso: sofrer e doer pra subir, pra descobrir que o caminho que procurava era uma descida. À troco de braços fechados? No ar só havia renúncia e desilusão, e agora precisava de mais luz pra iluminar os passos, de mais vida pra preencher. O sol — uma luz lhe clareou as idéias — só é possível pra quem alcança o horizonte.

Olhou praqueles olhos tristes. Não eram olhos tristes, eram olhos de despedida.

Adeus.


-


"Serás vida.. Bem vinda
Serás viva.. Bem viva
Em mim"

Seja bem-vindo, 2008.

※ Verdades


Abaixa o tom, não faze tempestade em copo d'água. Reclamas que as minhas verdades são muito duras, que ferem os teus sentimentos.. Tarde assim? E eu que as guardei por anos em silêncio? Respeito. Cala-te.


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Ps: Desculpem a ausência.. Não estou completamente presente, mas estou de volta.

※ Abrir Os Olhos


Depois de tanto se machucar, descobriu que o motivo de toda aquela dor era o meio termo. Era a tentativa de ser uma pessoa equilibrada e de tentar poupar as pessoas que amava que foi a corrompendo pouco a pouco, dia a dia. Sobrou vontade de sair de terra firme, faltou coragem pra chegar em alto mar. Nessa meia decisão, as ondas a engoliram, bateu contra as pedras.. Sofreu por dois lados a covardia de não optar por nenhum deles. Ainda se fere, mas de toda a palpitação que lhe move o peito, a que lhe pulsa mais forte é o medo de ficar assim, assim, assim... O medo foi tão forte que se embebeu de si mesma, e acabou descobrindo uma força que sequer pensou-se capaz de suportar. Se viu furacão, desordem e tumulto, sempre prestes a assustar os sonhos mais frágeis. Viu bem assim, e viu além: mais adiante das casinhas no pé da montanha, a tranquilidade também fluía seus ares puros no olho do furacão. Coincidência? Agora anda convicta, a passos brandos, pro fado do qual tanto se escondeu. Pode ser que nunca chegue, mas o primeiro passo já lhe basta.

※ O que resta da primavera


Primavera. A flor ali, sem saber o que fazer, ficou lavando os pensamentos com o vento.. Em outros tempos, preparou o melhor de si pra quando chegasse a hora. Se abriu em cores e perfumes, em cada borboleta que pousava oferecia junto um pedaço de sua alma. Mas a vida, injusta que era (assim pensava), fez com que toda a floresta se voltasse pra outras flores, fazendo até os menores bichos pisarem nas suas pétalas mais delicadas. Por quê? Engoliu secamente toda a sua dedicação, recolheu as gotas de ternura que ainda podia usar. Por quê? Ecoou amargamente promessas passadas por toda uma estação, no inverno foi a mais murcha.. Quis morrer. A dor, cada vez mais impessoal, foi ferindo lembrança por lembrança, até que a flor não pôde consigo mesma. Se lavou em lágrimas e, quando não havia mais, se alimentou do próprio sal. Prometeu-se nunca mais ser flor, nunca mais ser ferida por flores sem espinhos.
Olhou ao redor. As flores todas se abriam, umas mais e outras menos, sem ordem nem sequer doçura. Abrir-se bastava a elas: floriam sem pensar. A pequena flor sentiu a espada pesar novamente, agora como um clarão: às vistas alheias as flores seriam todas iguais, ninguém jamais saberia do quanto suas raízes se abalaram pra se manterem no chão. Já não sabia o que pensar, o vento fazia os sentimentos fugidios. Primavera. Tantas e tantas estações se passaram, e tudo que restava era florir como se não tivesse direito a ter memórias.. Lhe restava alguma coisa?

※ Revanche


"A tristeza está morta"
Palomilla

"Palomilla está morta"
Tristeza



=/ !

※ O Espirro


Sentou-se num banco e fitou longamente o nada. Queria que os seus olhos disessem alguma coisa, mas eles estavam tão secos que eram incapazes de demonstrar dor, sequer vida. Sentiu-se como uma enorme pedra no meio das outras daquele bosque. Respirou fundo. Até que era melhor assim mesmo, pelo menos ela assumiria o seu próprio controle, poria sua cabeça no comando (coisa que ela mal sabia fazer.. tanto tempo!). Com os olhos baixos, pôs-se a conversar com o seu coração, agora em tom solene: deveria dar-lhe o último adeus. Pois bem quando seu coração já batia apenas o necessário, que lhe surgiu umas borboletas bem no estômago. As idéias foram se esvaindo, tudo uma coisa confusa, as borboletas foram subindo, subindo.. Se controlou. Precisava provar pra ela que era mais forte do que ela mesma; voltou à despedida. Num pulo, o coração fez voar as borboletas novamente: agora elas voavam na sua cabeça, na palma de sua mão, nos cachos do seu cabelo. Foi um não-sei-o-quê que veio subindo, subindo, subindo.. Espirrou. Viu todo o passado flutuar no ar, viu as borboletas levarem-no pra longe. Mais tarde, por força de não sei que vida, olhou pra dentro de si e viu-se vazia. E assim seguiu dali em frente, arrependida de não ter voado com as borboletas enquanto era tempo. Na mesa de jantar, era uma sombra.
— Mãe, um espirro pode tirar pedaços da gente?
— Não sê boba, menina, é só um espirro.