※ O Semáforo


Olhou no relógio. A certeza de que não haviam olhos a observando lhe deu um alívio seco. Em torno de si, tudo era solidão e sombras. O vento se escondia por entre as gretas das paredes gélidas, assustava os transeuntes concentrados nos seus próprios passos e se dissipava. O bueiro tinha nas suas entranhas um mórbido breu que se movia sob as sombras à procura de restos. A rua, pálida e infinita, chamava para si um ou outro homem solitário que procurava nas suas esquinas algumas respostas perdidas. Talvez a sua irremediável culpa por existir encontrasse consolo em alguma dessas esquinas. Tarde demais. Grossas lágrimas caíam no asfalto deixando o piche cheirando a morte. A rua, o vento, as lágrimas escuras. O sinal vermelho.