18 de outubro de 2007

Abrir Os Olhos

Depois de tanto se machucar, descobriu que o motivo de toda aquela dor era o meio termo. Era a tentativa de ser uma pessoa equilibrada e de tentar poupar as pessoas que amava que foi a corrompendo pouco a pouco, dia a dia. Sobrou vontade de sair de terra firme, faltou coragem pra chegar em alto mar. Nessa meia decisão, as ondas a engoliram, bateu contra as pedras.. Sofreu por dois lados a covardia de não optar por nenhum deles. Ainda se fere, mas de toda a palpitação que lhe move o peito, a que lhe pulsa mais forte é o medo de ficar assim, assim, assim... O medo foi tão forte que se embebeu de si mesma, e acabou descobrindo uma força que sequer pensou-se capaz de suportar. Se viu furacão, desordem e tumulto, sempre prestes a assustar os sonhos mais frágeis. Viu bem assim, e viu além: mais adiante das casinhas no pé da montanha, a tranquilidade também fluía seus ares puros no olho do furacão. Coincidência? Agora anda convicta, a passos brandos, pro fado do qual tanto se escondeu. Pode ser que nunca chegue, mas o primeiro passo já lhe basta.

5 de outubro de 2007

O que resta da primavera

Primavera. A flor ali, sem saber o que fazer, ficou lavando os pensamentos com o vento.. Em outros tempos, preparou o melhor de si pra quando chegasse a hora. Se abriu em cores e perfumes, em cada borboleta que pousava oferecia junto um pedaço de sua alma. Mas a vida, injusta que era (assim pensava), fez com que toda a floresta se voltasse pra outras flores, fazendo até os menores bichos pisarem nas suas pétalas mais delicadas. Por quê? Engoliu secamente toda a sua dedicação, recolheu as gotas de ternura que ainda podia usar. Por quê? Ecoou amargamente promessas passadas por toda uma estação, no inverno foi a mais murcha.. Quis morrer. A dor, cada vez mais impessoal, foi ferindo lembrança por lembrança, até que a flor não pôde consigo mesma. Se lavou em lágrimas e, quando não havia mais, se alimentou do próprio sal. Prometeu-se nunca mais ser flor, nunca mais ser ferida por flores sem espinhos.
Olhou ao redor. As flores todas se abriam, umas mais e outras menos, sem ordem nem sequer doçura. Abrir-se bastava a elas: floriam sem pensar. A pequena flor sentiu a espada pesar novamente, agora como um clarão: às vistas alheias as flores seriam todas iguais, ninguém jamais saberia do quanto suas raízes se abalaram pra se manterem no chão. Já não sabia o que pensar, o vento fazia os sentimentos fugidios. Primavera. Tantas e tantas estações se passaram, e tudo que restava era florir como se não tivesse direito a ter memórias.. Lhe restava alguma coisa?