A flor pequenina, ainda em semente
Em seus sonhos vai sendo embebida
Esperando que a luz se faça presente
Para que vivam com sua vida.
Nasce exalando cego perfume
Mostra os espinhos e se fecha muda
Mas – ingênua! – cede ao costume
De ser doce, gentil, desnuda.
E se algum mal lhe aborrece
Pondo sua candura em penhor
Dum outro pior padece:
Se vê, irremediável, flor
Não sabe ferir, esquece
E fenece florindo amor.
16 de fevereiro de 2011
20 de janeiro de 2011
Expectativa
Quando se efetiva, é algo feliz
Se torna triste, se falhar por um triz
Se torna grande, se algo grande for
Quando nada vale, é algo incolor
É algo não tátil, não certo, retrátil
Se encolhe e expande, recolhe as apostas
Ninguém determina se é forte ou se é frágil
Ninguém anuncia possíveis respostas
Sub-existe no alheio, invisível a pulsar
E mesmo assim tem o seu próprio nome
Tem a atenção de alguém que está insone
Se torna inquietante, suspensa no ar.
Se torna triste, se falhar por um triz
Se torna grande, se algo grande for
Quando nada vale, é algo incolor
É algo não tátil, não certo, retrátil
Se encolhe e expande, recolhe as apostas
Ninguém determina se é forte ou se é frágil
Ninguém anuncia possíveis respostas
Sub-existe no alheio, invisível a pulsar
E mesmo assim tem o seu próprio nome
Tem a atenção de alguém que está insone
Se torna inquietante, suspensa no ar.
30 de outubro de 2010
Fora Do Ar
Sentou-se em frente à tv. A imagem era enredada de linhas brancas que pareciam nublar todos os quadros, mostrando apenas os vultos que passavam por eles... No som havia um leve chiado. Num programa qualquer, um filme francês - um falar carregado, uma música triste. Aqueles chiados e sons e silêncios pareciam ecoar nos cantos da casa, querendo adorná-la de algum sentido. Aprumou-se um pouco em direção à tv, apertando os olhos para tentar enxergar o máximo que poderia sem precisar se levantar. Inútil, as linhas brancas marolavam e misturavam todas as legendas, fazendo com que elas parecessem algum pedaço de paisagem. Soltou o corpo naquele sofá apertado, sem notar os tênis calçados ou o moletom no corpo. Ficou olhando para as imagens difusas, ora vendo silhuetas, ora vendo nada, ora vendo muito mais do que a tv mostrava na sua sintonia mal ajustada... Aquelas linhas, aquele chiado, tudo parecia fazer algum sentido dentro de seu coração, e por alguma razão ela se sentia confortável com aquele filme tão sem sentido. Adormeceu.
Estava sonhando...
Em um lugar nublado, se encontrava em meio a um povo que desconhecia, mas precisava se explicar, se fazer ver e ouvir, existir... Linhas brancas rolavam nos espaços vagos, e as coisas todas pareciam se fundir; todas as pessoas se misturando a toda a paisagem. De pronto todos pararam: a confusão pareceu se suspender por um instante no ar. Todos a olharam com um olhar intrigado, os olhos apertados. Respirou fundo: precisava explicar àquela gente toda a grande confusão que sentia; aquela que, quando presente, tirava dos nervos o brio e da mente as palavras certas para expressá-la. Sorriu e disse longamente, e sua voz se enlaçou a um leve chiado... As pessoas lhe sorriram de volta. Será que enfim se fizera ouvir? Ela ouviu: era uma voz difusa, apenas um instante antes da confusão se condensar:
- Pobrezinha, está fora do ar...
As cenas mudavam e mudavam e mudavam... Onde estava com a cabeça por nem ao menos trocar os sapatos?
Estava sonhando...
Em um lugar nublado, se encontrava em meio a um povo que desconhecia, mas precisava se explicar, se fazer ver e ouvir, existir... Linhas brancas rolavam nos espaços vagos, e as coisas todas pareciam se fundir; todas as pessoas se misturando a toda a paisagem. De pronto todos pararam: a confusão pareceu se suspender por um instante no ar. Todos a olharam com um olhar intrigado, os olhos apertados. Respirou fundo: precisava explicar àquela gente toda a grande confusão que sentia; aquela que, quando presente, tirava dos nervos o brio e da mente as palavras certas para expressá-la. Sorriu e disse longamente, e sua voz se enlaçou a um leve chiado... As pessoas lhe sorriram de volta. Será que enfim se fizera ouvir? Ela ouviu: era uma voz difusa, apenas um instante antes da confusão se condensar:
- Pobrezinha, está fora do ar...
As cenas mudavam e mudavam e mudavam... Onde estava com a cabeça por nem ao menos trocar os sapatos?
29 de outubro de 2010
21 de julho de 2010
À porta
Sinto que estou às margens.. lembro-me de estar à sua porta. Era algo tão natural, que soava ofensivo seguir o caminho. Eu entrava, você me abraçava, e todo o resto era como respirar.. Nosso tempo passava e se transformava, e em mim a confiança de que tudo aquilo era permanente acalmava meu coração. Saber seus gestos, ouvir seus risos. Mesmo em silêncio, nossa presença se completava, como se mesmo o ar tecesse entre nós a cumplicidade como linhas palpáveis. Mesmo que tudo o que nos unisse fosse um frágil laço invisível..
Hoje passo em frente à sua casa. Embora minha mente me traga vagamente a lembrança de sua campainha, meus pés já não me fazem parar. Sigo em frente e olho pelos cantos, como se olhar de frente concretizasse a realidade.. Como se apertar os olhos diminuísse a saudade.
[a pessoas que não visito mais]
Hoje passo em frente à sua casa. Embora minha mente me traga vagamente a lembrança de sua campainha, meus pés já não me fazem parar. Sigo em frente e olho pelos cantos, como se olhar de frente concretizasse a realidade.. Como se apertar os olhos diminuísse a saudade.
[a pessoas que não visito mais]
28 de junho de 2010
Tabula Rasa
Continuava andando nas pedras, nas sombras, nas areias.. andando sem saber dos passos que tomava, enfim, como já de costume. Já foi medo, sim: medo de seguir, medo de parar.. E agora não havia mais nada disso.
Ela olhou além, pro horizonte que tanto desejara, e viu que não havia nada que desejasse mais que estar ali. Não em meio às pedras e às árvores, nem tampouco entre as pessoas e todas as necessidades que elas criavam; não, apenas dentro de si mesma. Encontrando um algo que lhe acompanhava aonde quer que fosse. Às vezes se expressava com clareza, quando havia calma e nostalgia, quando o ar era morno e as luzes da cidade banhavam a noite.. Achava que era solidão, fantasmas, fadas e todo dia de magia.. Pensou escutar uma voz, uma melodia.. Pensou sentir um toque na pele já fria. E de tudo, ficou o vazio: passou alguém, algo assustou. E foi o fim. Nos dias seguintes, andando entre pessoas e ocupações e mercadorias, não viu mais nada. Algo que a seguia, mas não conseguia sentir...
Nos tempos adiante, muito tempo depois, num momento de solidão, encontrou o que procurava: num momento de quietude, aquela paz que tomava os sentidos se mostrava timidamente mais uma vez.
Estivera a caçar seus demônios, seus defeitos, seus erros e tudo o que pudesse exorcizar. Agora encontrava algo que a andava procurando por tempo muito maior.
Encontrara sua alma.
"nos passos que tomo a ordem desanda
as vistas enturvam, a vida arrasa
se caio ou se sigo, se canto a ciranda
no final nada sobra, sou tabula rasa."
Ela olhou além, pro horizonte que tanto desejara, e viu que não havia nada que desejasse mais que estar ali. Não em meio às pedras e às árvores, nem tampouco entre as pessoas e todas as necessidades que elas criavam; não, apenas dentro de si mesma. Encontrando um algo que lhe acompanhava aonde quer que fosse. Às vezes se expressava com clareza, quando havia calma e nostalgia, quando o ar era morno e as luzes da cidade banhavam a noite.. Achava que era solidão, fantasmas, fadas e todo dia de magia.. Pensou escutar uma voz, uma melodia.. Pensou sentir um toque na pele já fria. E de tudo, ficou o vazio: passou alguém, algo assustou. E foi o fim. Nos dias seguintes, andando entre pessoas e ocupações e mercadorias, não viu mais nada. Algo que a seguia, mas não conseguia sentir...
Nos tempos adiante, muito tempo depois, num momento de solidão, encontrou o que procurava: num momento de quietude, aquela paz que tomava os sentidos se mostrava timidamente mais uma vez.
Estivera a caçar seus demônios, seus defeitos, seus erros e tudo o que pudesse exorcizar. Agora encontrava algo que a andava procurando por tempo muito maior.
Encontrara sua alma.
"nos passos que tomo a ordem desanda
as vistas enturvam, a vida arrasa
se caio ou se sigo, se canto a ciranda
no final nada sobra, sou tabula rasa."
17 de abril de 2010
O Semáforo
Olhou no relógio. A certeza de que não haviam olhos a observando lhe deu um alívio seco. Em torno de si, tudo era solidão e sombras. O vento se escondia por entre as gretas das paredes gélidas, assustava os transeuntes concentrados nos seus próprios passos e se dissipava. O bueiro tinha nas suas entranhas um mórbido breu que se movia sob as sombras à procura de restos. A rua, pálida e infinita, chamava para si um ou outro homem solitário que procurava nas suas esquinas algumas respostas perdidas. Talvez a sua irremediável culpa por existir encontrasse consolo em alguma dessas esquinas. Tarde demais. Grossas lágrimas caíam no asfalto deixando o piche cheirando a morte. A rua, o vento, as lágrimas escuras. O sinal vermelho.
15 de novembro de 2009
No bosque
"- Eu desejo que seus desejos se tornem reais. Desejo que siga seu caminho porque eu não posso mais. Vai na frente que eu vou seguindo seus passos... Não, vai na frente que eu vou pelo outro caminho. Não.. vai na frente mas pela areia, pra que eu não siga seus passos. Vai pela brisa para eu não seguir seu cheiro. Não, vai dando a volta pra gente se encontrar lá na frente. Não, vai.. Não vai. Vai logo antes que eu mude de idéia."
Sob a sombra do carvalho, pequenos pedaços de folhas iam caindo, abrindo espaço a pequenos feixes de sol. O ar cheirava a terra, e a vida invisível do bosque fazia a sua parecer ainda mais abatida. Encostou-se no tronco e respirou fundo. Ainda lhe restava uma tarde inteira, tempo pro coração se espalhar e bater de novo. Tempo até pra pensar; como se isso mudasse a direção dos ventos... O coração suspenso no ar. Alinhado aos sentimentos dela, o bosque se agitou todo, fazendo os pássaros voarem baixo e as folhas irem pro alto. Alinhado até demais..
"- Vai chover."
Sob a sombra do carvalho, pequenos pedaços de folhas iam caindo, abrindo espaço a pequenos feixes de sol. O ar cheirava a terra, e a vida invisível do bosque fazia a sua parecer ainda mais abatida. Encostou-se no tronco e respirou fundo. Ainda lhe restava uma tarde inteira, tempo pro coração se espalhar e bater de novo. Tempo até pra pensar; como se isso mudasse a direção dos ventos... O coração suspenso no ar. Alinhado aos sentimentos dela, o bosque se agitou todo, fazendo os pássaros voarem baixo e as folhas irem pro alto. Alinhado até demais..
"- Vai chover."
24 de agosto de 2009
Gangorra
Às vezes sinto que tudo vai desmoronar. A brisa, ao invés de entrar pelos pulmões e soprar qualquer coisa que pareça com vida, só faz assustar e me fechar mais e mais fundo. Não sou o que idealizam, o que pretendo.. sou o que posso, o que meus braços conseguem alcançar nesse escuro denso. Alcançam o quê? As ondas vão e vem, e não consigo me dividir em pólos, não consigo andar nessa linha fina. Por medo da inconstância, enterrei os meus sentimentos nesse terreno vil, o mais fundo que consegui para que não aflorem mais. Como sementes no deserto. Como cultivar um jardim onde só há extremos? Tempestades de areia, sol, sal.. Não há vida que aguente, nem sentimento que se sustente. As pessoas passam alheias, praguejando o terreno por onde pisam sem saber de toda a vida que existe sob seus pés.. Às vezes me vem uma vontade louca de por tudo pra fora, para que as pessoas vejam, que apesar de tudo, existe vida, mesmo das mais delicadas.. Olho em volta, não há o que mostrar. Mesmo que toda a terra da minha alma fosse um grande jardim, por fora ainda é um grande deserto do qual ninguém se aproxima. Os dias vêm e vão, e apertando os olhos contra a tempestade que eu mesma criei, vou subindo e descendo nessa gangorra solitária, num deserto tão grande que já nem me importo mais em olhar o horizonte de minha vida. O tempo range.
9 de junho de 2009
Dúbio
É pó sem ser passado. Escorre pelos dedos e deixa o tato cheio de saudade. Não sei lidar com essas mãos vazias... Como saber? Alguém disse que é assim mesmo, uma hora ternura e outra tormenta. Quem tem o direito de dizer o que é tempestade e o que é copo d'água?
As idéias se aglomeram num canto de pó e abandono, mas resgatar sentimentos já não vale à pena... Suspensas no tempo, as coisas todas se misturam.
As idéias se aglomeram num canto de pó e abandono, mas resgatar sentimentos já não vale à pena... Suspensas no tempo, as coisas todas se misturam.
Assinar:
Postagens (Atom)
