※ Fora Do Ar


Sentou-se em frente à tv. A imagem era enredada de linhas brancas que pareciam nublar todos os quadros, mostrando apenas os vultos que passavam por eles... No som havia um leve chiado. Num programa qualquer, um filme francês - um falar carregado, uma música triste. Aqueles chiados e sons e silêncios pareciam ecoar nos cantos da casa, querendo adorná-la de algum sentido. Aprumou-se um pouco em direção à tv, apertando os olhos para tentar enxergar o máximo que poderia sem precisar se levantar. Inútil, as linhas brancas marolavam e misturavam todas as legendas, fazendo com que elas parecessem algum pedaço de paisagem. Soltou o corpo naquele sofá apertado, sem notar os tênis calçados ou o moletom no corpo. Ficou olhando para as imagens difusas, ora vendo silhuetas, ora vendo nada, ora vendo muito mais do que a tv mostrava na sua sintonia mal ajustada... Aquelas linhas, aquele chiado, tudo parecia fazer algum sentido dentro de seu coração, e por alguma razão ela se sentia confortável com aquele filme tão sem sentido. Adormeceu.
Estava sonhando...
Em um lugar nublado, se encontrava em meio a um povo que desconhecia, mas precisava se explicar, se fazer ver e ouvir, existir... Linhas brancas rolavam nos espaços vagos, e as coisas todas pareciam se fundir; todas as pessoas se misturando a toda a paisagem. De pronto todos pararam: a confusão pareceu se suspender por um instante no ar. Todos a olharam com um olhar intrigado, os olhos apertados. Respirou fundo: precisava explicar àquela gente toda a grande confusão que sentia; aquela que, quando presente, tirava dos nervos o brio e da mente as palavras certas para expressá-la. Sorriu e disse longamente, e sua voz se enlaçou a um leve chiado... As pessoas lhe sorriram de volta. Será que enfim se fizera ouvir? Ela ouviu: era uma voz difusa, apenas um instante antes da confusão se condensar:
- Pobrezinha, está fora do ar...
As cenas mudavam e mudavam e mudavam... Onde estava com a cabeça por nem ao menos trocar os sapatos?