A vida é como uma sala de estar
Em silêncio inquieto e velhas revistas
Sem mesmo ninguém pra dialogar:
Os ruídos são nossas pequenas conquistas.
A vida é como um relógio de corda
Que não raro parece medir tudo errado
Se instável dorme, ou então acorda
A vida às vezes é tempo parado.
A vida é uma folha que se desprende
Vem soprando e caindo em doçura calma
Que ao ver uma mão que ao seu rumo se estende
Cai ingênua, a um triz, por fora da palma.
A vida é uma foto tirada ao longe
Que mostra quão belo é o cenário exposto
Confundindo a ausência sutil do detalhe
Ver melhor um cabelo, um gesto, um rosto.
É pensar em dizer e esquecer-se da fala
É um eterno sair do ninho
É uma saudade que vem e cala
É um dançar de roda, sozinho.
A vida é buscar-se pelo caminho.
9 de setembro de 2012
6 de abril de 2012
O Perfume
Às vezes, em ventos sem cais ou baliza
Onde vai-se, sem muito, para onde ele sopra
Vem leve e nulo, o soprar de uma brisa
Traz consigo um perfume que dela se mostra.
Vem singelo a exalar, porém sem receio
Verte sua fragrância por todo o ar
Não define o que é, não diz de onde veio
Mas é doce e são, gentil ao aflar
Passa fraco e constante, perfume sutil
Invisível ao olhar, assim é seu estado
Ao ver d'um distraído, diz "nunca existiu"
Mas sereno ao alardo, faz-se cativado.
A princípio o pensar resistia, arredio
Mas a seu tempo o perfume ganhou confiança
Se ausente ou pequeno, o ar era vazio
Fez-se grande até nas pequenas nuanças.
E assim vinham tempos nesse e noutro sentido
E ia ficando urdido o saber compreendido
Fosse o vento tão forte, a estação que fosse
Tinha na mente embebido o perfume tão doce
No peito sentia, ao seguir a andança
Seria eterno ao olfato a sensível lembrança
Em flores ou frutos, terra ou lama
Do perfume que de pronto se sente e ama...
5 de janeiro de 2012
Um Dia
Um dia fiz uma escolha, e há muito tempo atrás
Disse o que o peito não aceita, mas à raiva satisfaz
Soube que à sombra do remorso a culpa cresce, e aliás
Soube que à luz da verdade o erro não é fugaz
Senti vontade de andar ao vento, vontade de ter um cais
Vontade de estar sereno, vontade de sentir paz
Quis ser muito pequeno, até nem não ver-me mais
Mas um dia fiz uma escolha, e há muito tempo atrás...
Disse o que o peito não aceita, mas à raiva satisfaz
Soube que à sombra do remorso a culpa cresce, e aliás
Soube que à luz da verdade o erro não é fugaz
Senti vontade de andar ao vento, vontade de ter um cais
Vontade de estar sereno, vontade de sentir paz
Quis ser muito pequeno, até nem não ver-me mais
Mas um dia fiz uma escolha, e há muito tempo atrás...
12 de setembro de 2011
Livro
Ela havia virado a página. Depois de noites e mais noites adivinhando o desenho daquelas letrinhas no escuro, já não tinha mais condições de seguir contando a mesma história. Havia desgastado de tal maneira aqueles versos que tanto gostava, que já não tinha mais condições de lembrar sobre o que se falava. Era como tentar lembrar um rosto que esmaecia, ou procurar nos lábios uma palavra fugidia... As letras se embaralhavam todas. O livro já não poderia ter o mesmo brilho: as folhas cheias de dobras lhe lembravam as grandes partes preferidas; acabou por dobrar tudo. Na falta do novo, dobrava ao próprio coração, procurando achar um desdobramento, mas de sua grande confusão só sobravam as marcas. De ombros caídos e vincos fundos, pôs o livro na estante e deu meia volta rumo à janela. O vento soprava morno, e a fazia esquecer por instantes aquela capa vermelha sobre a mesa. Ali ficou por um longo tempo, e teve a sensação de sonhar. O vento cessaria a qualquer momento, e ela teria de voltar os olhos para si mesma e dizer-se se teria condições de guardar aquela história em seu coração por toda a vida. Às vezes queria livrar-se daquilo, tirar tudo de dentro dela... Mas às vezes mesmo o que dói tem sua história; até uma dedicatória.
"Só peço a você um favor, se puder
Não me esqueça em um canto qualquer"
"Só peço a você um favor, se puder
Não me esqueça em um canto qualquer"
27 de maio de 2011
Barco À Vela
Então aconteceu que ela se viu navegando por um mar de águas escuras...
Há muito tempo atrás, quando ela ainda pisava em terra firme, havia visto navios indo rumo ao horizonte, e a idéia de conhecer o desconhecido lhe deu brilho nos olhos e batimentos a mais no coração. Disse a todos que ia, e dizer bastava: suas idéias eram soltas, mas sua palavra pesava como uma pedra. "É muito arriscado", diziam alguns, e ela dizia que compreendia os riscos, mas por algum motivo se sentir um pontinho no meio da água fazia que seu coração embalar qualquer medo que surgisse em uma doce canção de ninar. Foi preparando seus suprimentos, consertando seu barco, preparando-se à sua maneira para toda ocasião que pudesse encontrar. Chegado o dia, esteve à beira-mar, a olhar tudo o que permaneceria. As pessoas lhe sorriram um sorriso que ela não conseguiu distinguir, e isto a confundiu um pouco. Acima das demais coisas, um rosto gentil lhe dissera: "Faça seu melhor". Para isto ela estava preparada, seu melhor estava todo no barco.
Ela partiu, e foi necessário que se passasse muito tempo até que ela percebesse que não estava em um sonho.. A brisa do mar tirava seus pensamentos do lugar, e ela parecia entorpecida. Abriu os olhos enfim, e viu o que esperava, inclusive além: viu pássaros, e peixes, e algas embrenhadas nas redes, e mar, e mar, e mar...
Aconteceu um dia, quando estava deitada ao ar livre, a olhar o céu. Seu barco era um ponto branco em um grande cenário azul, mas não era branco a ferir os olhos, muito ao contrário: a tintura da embarcação era de um branco muito antigo, daqueles que não voltam mais ao alvo puro, mas que se tem gosto de olhar.. para quem sabe enxergar, o encardido do branco tem lembranças. A vela se estendia dois metros acima, e melhor retrato dela mesma não poderia haver: era uma vela de renda, com recortes muito pequenos que não se via muito bem à luz, mas que ao entardecer se faziam presentes.. era como um vitral no céu. As pessoas riam quando em criança passava abraçada àquele tecido, e ela o havia guardado em um baú bem fechado com sua vergonha. Agora era diferente: a renda se estendia até o alto, e já havia tantos dias de sua partida que ela já não sentia medo nem vergonha. Suas coisinhas estavam soltas por toda parte e não havia necessidade de guardá-las todas nas caixas: ali ela não precisava estar pelos cantos.
Pois foi bem neste momento que o tempo virou. Escureceu e ventou, trovejou e choveu. Passaram-se muitos dias sem peixes nem aves, e ela focava em sua mente a luz do Sol para animar-se, mas a luz tremia e ela perdia o rumo sem perceber. Sentiu fome, mas nos seus suprimentos só havia os livros que lhe alimentavam o coração. Sentiu frio, mas a música que levara consigo não aquecia sua alma, era como uma colcha fina demais. Deitou-se. Já havia passado muito tempo e ela não contava mais, a vela havia rompido-se por um vento muito forte e já não havia como se guiar: sua vela agora eram trapos de um sonho bonito.
"Faça o melhor", ela pensava. Ela havia entendido tudo errado. Não era o melhor de sua alma, era o melhor de seu corpo. De seu cérebro.
Eram águas escuras, e ela estava à deriva... Não tinha nada do bom, só tinha o melhor dela. O que ela tinha? Um barco à vela..
"And it ripes through the silence of our camp at night
And it ripes through the silence
All that I left is all that I hide.."
Há muito tempo atrás, quando ela ainda pisava em terra firme, havia visto navios indo rumo ao horizonte, e a idéia de conhecer o desconhecido lhe deu brilho nos olhos e batimentos a mais no coração. Disse a todos que ia, e dizer bastava: suas idéias eram soltas, mas sua palavra pesava como uma pedra. "É muito arriscado", diziam alguns, e ela dizia que compreendia os riscos, mas por algum motivo se sentir um pontinho no meio da água fazia que seu coração embalar qualquer medo que surgisse em uma doce canção de ninar. Foi preparando seus suprimentos, consertando seu barco, preparando-se à sua maneira para toda ocasião que pudesse encontrar. Chegado o dia, esteve à beira-mar, a olhar tudo o que permaneceria. As pessoas lhe sorriram um sorriso que ela não conseguiu distinguir, e isto a confundiu um pouco. Acima das demais coisas, um rosto gentil lhe dissera: "Faça seu melhor". Para isto ela estava preparada, seu melhor estava todo no barco.
Ela partiu, e foi necessário que se passasse muito tempo até que ela percebesse que não estava em um sonho.. A brisa do mar tirava seus pensamentos do lugar, e ela parecia entorpecida. Abriu os olhos enfim, e viu o que esperava, inclusive além: viu pássaros, e peixes, e algas embrenhadas nas redes, e mar, e mar, e mar...
Aconteceu um dia, quando estava deitada ao ar livre, a olhar o céu. Seu barco era um ponto branco em um grande cenário azul, mas não era branco a ferir os olhos, muito ao contrário: a tintura da embarcação era de um branco muito antigo, daqueles que não voltam mais ao alvo puro, mas que se tem gosto de olhar.. para quem sabe enxergar, o encardido do branco tem lembranças. A vela se estendia dois metros acima, e melhor retrato dela mesma não poderia haver: era uma vela de renda, com recortes muito pequenos que não se via muito bem à luz, mas que ao entardecer se faziam presentes.. era como um vitral no céu. As pessoas riam quando em criança passava abraçada àquele tecido, e ela o havia guardado em um baú bem fechado com sua vergonha. Agora era diferente: a renda se estendia até o alto, e já havia tantos dias de sua partida que ela já não sentia medo nem vergonha. Suas coisinhas estavam soltas por toda parte e não havia necessidade de guardá-las todas nas caixas: ali ela não precisava estar pelos cantos.
Pois foi bem neste momento que o tempo virou. Escureceu e ventou, trovejou e choveu. Passaram-se muitos dias sem peixes nem aves, e ela focava em sua mente a luz do Sol para animar-se, mas a luz tremia e ela perdia o rumo sem perceber. Sentiu fome, mas nos seus suprimentos só havia os livros que lhe alimentavam o coração. Sentiu frio, mas a música que levara consigo não aquecia sua alma, era como uma colcha fina demais. Deitou-se. Já havia passado muito tempo e ela não contava mais, a vela havia rompido-se por um vento muito forte e já não havia como se guiar: sua vela agora eram trapos de um sonho bonito.
"Faça o melhor", ela pensava. Ela havia entendido tudo errado. Não era o melhor de sua alma, era o melhor de seu corpo. De seu cérebro.
Eram águas escuras, e ela estava à deriva... Não tinha nada do bom, só tinha o melhor dela. O que ela tinha? Um barco à vela..
"And it ripes through the silence of our camp at night
And it ripes through the silence
All that I left is all that I hide.."
31 de março de 2011
Idéias
As idéias andavam confusas.. Sentia-se exausta e vazia. Era como sentir sede em um dia quente, como ler um longo livro e não lembrar-se mais, era uma sacola pesada que marcava os dedos, eram flores sem cheiro e balões sem cor, eram palavras iguais, era esperar o metrô em silêncio, era um toque insensível, era perder um bilhete no vento, era uma refeição sem prazer, eram vozes na tv e chiados na cabeça, era o contrário, era tudo a mesma coisa.. Era um torpor, um ar denso demais. Era um dor.. era alguma coisa. Era algo que a fazia pensar.. em quê? As idéias andavam confusas..
16 de fevereiro de 2011
A Flor
A flor pequenina, ainda em semente
Em seus sonhos vai sendo embebida
Esperando que a luz se faça presente
Para que vivam com sua vida.
Nasce exalando cego perfume
Mostra os espinhos e se fecha muda
Mas – ingênua! – cede ao costume
De ser doce, gentil, desnuda.
E se algum mal lhe aborrece
Pondo sua candura em penhor
Dum outro pior padece:
Se vê, irremediável, flor
Não sabe ferir, esquece
E fenece florindo amor.
Em seus sonhos vai sendo embebida
Esperando que a luz se faça presente
Para que vivam com sua vida.
Nasce exalando cego perfume
Mostra os espinhos e se fecha muda
Mas – ingênua! – cede ao costume
De ser doce, gentil, desnuda.
E se algum mal lhe aborrece
Pondo sua candura em penhor
Dum outro pior padece:
Se vê, irremediável, flor
Não sabe ferir, esquece
E fenece florindo amor.
20 de janeiro de 2011
Expectativa
Quando se efetiva, é algo feliz
Se torna triste, se falhar por um triz
Se torna grande, se algo grande for
Quando nada vale, é algo incolor
É algo não tátil, não certo, retrátil
Se encolhe e expande, recolhe as apostas
Ninguém determina se é forte ou se é frágil
Ninguém anuncia possíveis respostas
Sub-existe no alheio, invisível a pulsar
E mesmo assim tem o seu próprio nome
Tem a atenção de alguém que está insone
Se torna inquietante, suspensa no ar.
Se torna triste, se falhar por um triz
Se torna grande, se algo grande for
Quando nada vale, é algo incolor
É algo não tátil, não certo, retrátil
Se encolhe e expande, recolhe as apostas
Ninguém determina se é forte ou se é frágil
Ninguém anuncia possíveis respostas
Sub-existe no alheio, invisível a pulsar
E mesmo assim tem o seu próprio nome
Tem a atenção de alguém que está insone
Se torna inquietante, suspensa no ar.
30 de outubro de 2010
Fora Do Ar
Sentou-se em frente à tv. A imagem era enredada de linhas brancas que pareciam nublar todos os quadros, mostrando apenas os vultos que passavam por eles... No som havia um leve chiado. Num programa qualquer, um filme francês - um falar carregado, uma música triste. Aqueles chiados e sons e silêncios pareciam ecoar nos cantos da casa, querendo adorná-la de algum sentido. Aprumou-se um pouco em direção à tv, apertando os olhos para tentar enxergar o máximo que poderia sem precisar se levantar. Inútil, as linhas brancas marolavam e misturavam todas as legendas, fazendo com que elas parecessem algum pedaço de paisagem. Soltou o corpo naquele sofá apertado, sem notar os tênis calçados ou o moletom no corpo. Ficou olhando para as imagens difusas, ora vendo silhuetas, ora vendo nada, ora vendo muito mais do que a tv mostrava na sua sintonia mal ajustada... Aquelas linhas, aquele chiado, tudo parecia fazer algum sentido dentro de seu coração, e por alguma razão ela se sentia confortável com aquele filme tão sem sentido. Adormeceu.
Estava sonhando...
Em um lugar nublado, se encontrava em meio a um povo que desconhecia, mas precisava se explicar, se fazer ver e ouvir, existir... Linhas brancas rolavam nos espaços vagos, e as coisas todas pareciam se fundir; todas as pessoas se misturando a toda a paisagem. De pronto todos pararam: a confusão pareceu se suspender por um instante no ar. Todos a olharam com um olhar intrigado, os olhos apertados. Respirou fundo: precisava explicar àquela gente toda a grande confusão que sentia; aquela que, quando presente, tirava dos nervos o brio e da mente as palavras certas para expressá-la. Sorriu e disse longamente, e sua voz se enlaçou a um leve chiado... As pessoas lhe sorriram de volta. Será que enfim se fizera ouvir? Ela ouviu: era uma voz difusa, apenas um instante antes da confusão se condensar:
- Pobrezinha, está fora do ar...
As cenas mudavam e mudavam e mudavam... Onde estava com a cabeça por nem ao menos trocar os sapatos?
Estava sonhando...
Em um lugar nublado, se encontrava em meio a um povo que desconhecia, mas precisava se explicar, se fazer ver e ouvir, existir... Linhas brancas rolavam nos espaços vagos, e as coisas todas pareciam se fundir; todas as pessoas se misturando a toda a paisagem. De pronto todos pararam: a confusão pareceu se suspender por um instante no ar. Todos a olharam com um olhar intrigado, os olhos apertados. Respirou fundo: precisava explicar àquela gente toda a grande confusão que sentia; aquela que, quando presente, tirava dos nervos o brio e da mente as palavras certas para expressá-la. Sorriu e disse longamente, e sua voz se enlaçou a um leve chiado... As pessoas lhe sorriram de volta. Será que enfim se fizera ouvir? Ela ouviu: era uma voz difusa, apenas um instante antes da confusão se condensar:
- Pobrezinha, está fora do ar...
As cenas mudavam e mudavam e mudavam... Onde estava com a cabeça por nem ao menos trocar os sapatos?
29 de outubro de 2010
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