※ Barco À Vela


Então aconteceu que ela se viu navegando por um mar de águas escuras...

Há muito tempo atrás, quando ela ainda pisava em terra firme, havia visto navios indo rumo ao horizonte, e a idéia de conhecer o desconhecido lhe deu brilho nos olhos e batimentos a mais no coração. Disse a todos que ia, e dizer bastava: suas idéias eram soltas, mas sua palavra pesava como uma pedra. "É muito arriscado", diziam alguns, e ela dizia que compreendia os riscos, mas por algum motivo se sentir um pontinho no meio da água fazia que seu coração embalar qualquer medo que surgisse em uma doce canção de ninar. Foi preparando seus suprimentos, consertando seu barco, preparando-se à sua maneira para toda ocasião que pudesse encontrar. Chegado o dia, esteve à beira-mar, a olhar tudo o que permaneceria. As pessoas lhe sorriram um sorriso que ela não conseguiu distinguir, e isto a confundiu um pouco. Acima das demais coisas, um rosto gentil lhe dissera: "Faça seu melhor". Para isto ela estava preparada, seu melhor estava todo no barco.
Ela partiu, e foi necessário que se passasse muito tempo até que ela percebesse que não estava em um sonho.. A brisa do mar tirava seus pensamentos do lugar, e ela parecia entorpecida. Abriu os olhos enfim, e viu o que esperava, inclusive além: viu pássaros, e peixes, e algas embrenhadas nas redes, e mar, e mar, e mar...
Aconteceu um dia, quando estava deitada ao ar livre, a olhar o céu. Seu barco era um ponto branco em um grande cenário azul, mas não era branco a ferir os olhos, muito ao contrário: a tintura da embarcação era de um branco muito antigo, daqueles que não voltam mais ao alvo puro, mas que se tem gosto de olhar.. para quem sabe enxergar, o encardido do branco tem lembranças. A vela se estendia dois metros acima, e melhor retrato dela mesma não poderia haver: era uma vela de renda, com recortes muito pequenos que não se via muito bem à luz, mas que ao entardecer se faziam presentes.. era como um vitral no céu. As pessoas riam quando em criança passava abraçada àquele tecido, e ela o havia guardado em um baú bem fechado com sua vergonha. Agora era diferente: a renda se estendia até o alto, e já havia tantos dias de sua partida que ela já não sentia medo nem vergonha. Suas coisinhas estavam soltas por toda parte e não havia necessidade de guardá-las todas nas caixas: ali ela não precisava estar pelos cantos.

Pois foi bem neste momento que o tempo virou. Escureceu e ventou, trovejou e choveu. Passaram-se muitos dias sem peixes nem aves, e ela focava em sua mente a luz do Sol para animar-se, mas a luz tremia e ela perdia o rumo sem perceber. Sentiu fome, mas nos seus suprimentos só havia os livros que lhe alimentavam o coração. Sentiu frio, mas a música que levara consigo não aquecia sua alma, era como uma colcha fina demais. Deitou-se. Já havia passado muito tempo e ela não contava mais, a vela havia rompido-se por um vento muito forte e já não havia como se guiar: sua vela agora eram trapos de um sonho bonito.

"Faça o melhor", ela pensava. Ela havia entendido tudo errado. Não era o melhor de sua alma, era o melhor de seu corpo. De seu cérebro.

Eram águas escuras, e ela estava à deriva... Não tinha nada do bom, só tinha o melhor dela. O que ela tinha? Um barco à vela..





"And it ripes through the silence of our camp at night
And it ripes through the silence
All that I left is all that I hide.."
Blogger Leonardo

Eu fico me perguntando. Qual seria o meu barco a vela? Ele está pronto pra tempestade?

25 de junho de 2011 10:45  

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