※ Livro


Ela havia virado a página. Depois de noites e mais noites adivinhando o desenho daquelas letrinhas no escuro, já não tinha mais condições de seguir contando a mesma história. Havia desgastado de tal maneira aqueles versos que tanto gostava, que já não tinha mais condições de lembrar sobre o que se falava. Era como tentar lembrar um rosto que esmaecia, ou procurar nos lábios uma palavra fugidia... As letras se embaralhavam todas. O livro já não poderia ter o mesmo brilho: as folhas cheias de dobras lhe lembravam as grandes partes preferidas; acabou por dobrar tudo. Na falta do novo, dobrava ao próprio coração, procurando achar um desdobramento, mas de sua grande confusão só sobravam as marcas. De ombros caídos e vincos fundos, pôs o livro na estante e deu meia volta rumo à janela. O vento soprava morno, e a fazia esquecer por instantes aquela capa vermelha sobre a mesa. Ali ficou por um longo tempo, e teve a sensação de sonhar. O vento cessaria a qualquer momento, e ela teria de voltar os olhos para si mesma e dizer-se se teria condições de guardar aquela história em seu coração por toda a vida. Às vezes queria livrar-se daquilo, tirar tudo de dentro dela... Mas às vezes mesmo o que dói tem sua história; até uma dedicatória.



"Só peço a você um favor, se puder
Não me esqueça em um canto qualquer"
Anonymous Seu Zoé

"Na falta do novo, dobrava ao próprio coração, procurando achar um desdobramento, mas de sua grande confusão só sobravam as marcas."

Doeu como tem doído esses dias. Doeu.

12 de setembro de 2011 23:43  
Blogger Leonardo

Espanca! Palomilla me espanca!

19 de setembro de 2011 13:33  

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