※ Daqueles dias


Ao abrir os olhos, ela pode sentir: era um daqueles dias. Ela acordou tão sem norte em si mesma que custou encontrar a cabeceira, e a alma ficou tão pesada que sentia-se calada... A voz não lhe veio. O café, que costumava despertá-la dos próprios pensamentos, baixou a guarda e deixou os sentimentos passarem. Naquele dia o motorista ficou sem saber o número da casa e a secretária precisou procurar na lista o número do telefone... O porteiro, simpático, ficou com o bom dia entalado na garganta; a piada de elevador foi contada para outra pessoa. A senhorinha simpática também percebeu: ao invés de brindar-lhe com um oi cheio de ternura simplesmente deixou-a passar... E assim passaram as horas. Observou com certa tristeza e assombro que as pessoas permaneciam como no dia anterior, mas ela passou por todas: não sentia desejo de permanecer-se em ninguém. Chegou em casa assustada, a vida de repente parecia barulhenta demais e seu coração poderia ceder. Não cedeu. Era justamente esta a angústia de dias como aquele: sentia-se no limite sem nunca extravasar-se, era a gota d'água que nunca transbordava. O que fazer então? Não havia canção que fizesse calar tanto silêncio, e ela desejou adormecer. Mas em repouso mesmo nenhum conforto, nem mesmo nenhum pesadelo: sonhava que carregava correntes presas ao corpo por uma longa estrada e, ao invés de um caminho triste e tortuoso, encontrava uma rua com ares de razão e civilidade, e ia abafando o som das correntes dizendo bom dia ao porteiro, à secretaria, ao motorista... Eram dias difíceis, nos quais ela sentia vontade de ter pesadelos terríveis, acordar chorando e assustada e recompor-se depois, mas tudo o que conseguia era entremeá-los a sua rotina, deixando o coração confuso e a voz adormecida em cada canto que pudesse esquecer...