※ Somnium


O sonho, quando pequeno, era grande e resolvido
Bailarina. Astronauta. Princesinha. Grande atleta.
Ao aprender a andar sozinho, perguntou à porta aberta
Que adiantava ser crescido, se ninguém lhe dava ouvido?

Das grandezas se encolheu, às avessas, transviado
À conduta invejável, o sucesso costumeiro
Mas cedeu, ainda sim, sem sentir-se adequado
O alimento que ansiava não era a imagem do espelho

Transformou-se enfim em dor, foz de quem não se decide
Tudo em mente, tudo certo, sem achar-se do caminho
Desejou até morrer-se, assim mesmo, ali, sozinho
Mas, em paz, retrocedeu, enlaçando-se com a lide.

Hoje o sonho, mirradinho, já não anda mais à frente
Vai de lado, meio esguio, pela beira da estrada
Em silêncio de quem diz que não deseja mais um nada:
Só a brecha da razão que tudo guia, insolente.