※ A Presilha


Desde a infância, sempre cultivei os cabelos cacheados e volumosos. Por conta disto e da minha falta de tato para lidar com tantos fios, constantemente tinha que apelar para artíficios que me ajudassem a controlar as madeixas. Era todo tipo de acessório: presilhas, tiaras, tique-taques... E em meio a minha coleção que já aos meus sete anos se formava, eis em que em uma das muitas férias que passei na casa de minha avó ela me presenteou com uma delicadeza inesperada: uma presilha de um dourado delicado, com uma flor que se abria em uma tela fina de metal e outros tantos detalhes que eu jamais diria que ela seria capaz de prender meu cabelo. Mas era.

A presilha foi o presente ideal para mim. Eu a usava em lugares especiais, escolhia os dias em que ia tirá-la do porta-joias com critério, a fim de que eu a pudesse conservar sempre nova, tal qual a presilha que minha vó possuia (ela havia comprado duas iguais, mas a dela parecia possuir sempre um brilho diferente). Tempos depois, com o critério de uso bem menos rigoroso, acabei percebendo que os detalhes do metal começavam a enferrujar, e a fim de conservar o único presente que ainda possuia dela, guardei a presilha e seus detalhes no fundo do porta-joias por longo tempo.

Passaram-se os anos. Houve vezes em que me senti tão feliz que queria ter várias daquelas presilhas para enfeitar o meu cabelo, outras vezes que quis impressionar e lembrei-me de por a presilha, mas desisti da ideia por achar que o acessório pudesse revelar discretamente minhas expectativas. Houve dias mesmo que pensei que não havia mais motivo para enfeitar os cachos ou qualquer outra coisa que fosse, e pus-me a acreditar que a última vez que tenha usado a presilha querida tenha sido em uma desfocada lembrança...

Hoje abri o porta-jóias novamente. Com medo da ação do tempo sobre a memória, passei as mãos pelas dobras de metal delicadamente. Aquele mimo me acompanhou por anos a fio mesmo sem ter sequer saído daquela caixinha. Fiquei a pensar se algum dia teria razões de usar uma lembrança tão singela e tão importante novamente. Sem achar respostas aos meus próprios questionamentos, tentei puxar pela memória a lembrança de minha avó com a presilha que tenho no cabelo dela, e não recordei-me de vê-la usando este modelo uma vez sequer. A princípio fiquei triste, por pensar que ela não havia compartilhado comigo todas as escolhas que envolveram a presilha que ganhei. Por outro, acho que acabei entendendo: a experiência dos anos e os cabelos brancos e sempre alinhados haviam dado-lhe a confiança de saber o que queria, e ela havia aprendido a expressar a própria vontade sem precisar sequer trocar os brincos.

A presilha que ganhei foi uma lição de vida. Fez com que eu pensasse em quais momentos são realmente importantes, mesmo sem chegar a nenhum entendimento. Hoje sou mulher, mas às vezes preciso me fechar no quarto e abrir o porta-jóias, pensar em como devo me preparar para cada nova situação, procurar através do vestuário expressões que minha boca não consegue dizer. Às vezes retiro o que acho que preciso e torno a fechar a caixinha, insegura. Às vezes acho que não vou encontrar palavras, anéis ou brincos que deem para expressar tanta coisa. Nessas vezes eu choro, pois sei que se não há coragem no fundo de uma caixinha não haverá por parte alguma.

Mas daí eu me lembro dela, e as lágrimas parecem secar. Pego as joias mais impessoais e tento achar por dentro o brio que ainda me falta. A presilha ainda não encontrei oportunidade de usar, mas já não tenho tanta pressa; passo os dias usando as outras presilhas que tenho enquanto minha avó me sorri do céu, com os brincos de sempre.