※ Penteadeira


No apertamento em que vivia, todo cuidado ao abrir o guarda-roupa era pouco: era preciso cautela e muito carinho para acessar aquelas blusas no fundo das prateleiras, ou aquela última caixa de uma pilha de três. Empilhavam-se também os sapatos, bem como os livros e as revistas de coleção. As bijuterias ficavam em uma caixinha com vários compartimentos, bem como as maquiagens, acessórios de cabelo, de unha... Suspirou. Desde quando era tão difícil acessar seus próprios pertences? Tendo sua vida assim, toda compartimentada, sentia um quê de desanimo e uma grande vontade de sair usando seu comum jeans e camiseta, que não por coincidência já se encontravam em seu corpo. Esparramou-se na cama. Lembrava-se das histórias de sua avó, que não saía de casa sem passar pó de arroz ou pentear os cabelos, e inconscientemente passou os olhos pelos móveis do quarto... deu por falta de algum objeto. Não um objeto qualquer: uma penteadeira. Nas linhas finas da infância, seu grande divertimento era sentar-se junto à vó em frente à penteadeira, em uma banqueta, e permitir-se mexer em todos os frascos e embalagens organizadas na superfície. Poder ver-se em frente àquele espelho, assim, feito para isso mesmo, dava-lhe um brilho especial nos olhos e um prazer especial de se ver. Sentar a frente de si mesma fazia com que ela se sentisse mais encontrada nela, tornando o ato de se hidratar ou passar um batom (rosinha!) um um gesto especial de carinho.

Acontece que o tempo correu. A vida diminuiu e apressou-se, e não havia mais espaço para tanto lirismo em uma mera tarefa cotidiana. Os cabelos já os penteava sem cuidado, o batom passava pelo caminho, e o espelho... Ah, coitadinho! Este agora só se encontrava aos pedaços. Um pequeno na bolsa. Um no banheiro do shopping. Só uma olhada rápida, de passagem, já atrasada.

Seu coração, no entanto, parara no tempo. Afoita à todas as necessidades da vida adulta (moderna!), ela ainda buscava um lugar para espelhar-se. Sentia vontade de ser guiada pelos sentimentos e não pelo relógio, de não correr atrás, de respirar devagar... Sentia-se em descompasso com o mundo, sem encontrar solução para tão frágil desequilíbrio. Sem esperar que o celular tocasse para lembrar-lhe do próximo compromisso, foi se levantando num cansaço triste, típico de quem não tem forças para lutar contra a realidade. Por fora continuaria respeitando os horários, gastando o tempo com discernimento, olhando-se apenas no espelho do quebra-sol do carro. Por dentro, contudo, continuaria balançando os pés pequenos, felizes na banqueta, olhando-se com olhos de estrela e se penteando vagarosamente, sem a preocupação em perder o horário da nutricionista.